LInguagem e Sociedade

 


A primeira vez que me dei conta desse tema aconteceu durante um intercâmbio cultural.
Eu tinha 15 anos e, como todo jovem curioso, queria aprender a dizer palavrões no idioma local.
Em meio às perguntas, quis saber como chamar alguém de “corno”. Para minha surpresa,
me explicaram que o termo mais próximo seria cheater
— mas ele não se referia à pessoa traída, e sim àquela que trai.

Aquilo me chamou a atenção. Percebi que essa forma mais direta e,

de certo modo, mais justa de nomear os fatos não era apenas uma escolha linguística,

mas um reflexo de valores. A comunicação moldava o caráter, a ética e a moral

do cidadão local de maneira diferente daquela que eu conhecia no Brasil.


A segunda vez que voltei a pensar nisso foi durante minha formação em Tecnologia

da Informação, enquanto estudava Comunicação. Aprendi que a linguagem

define o mundo por contraste: sabemos o que é um “cão” justamente porque

ele não é um gato, não é um peixe, não é um pássaro.


As palavras criam fronteiras, significados e, sobretudo, julgamentos.

Sob essa lógica, a suposta piada em torno da palavra “corno” coloca fora da

margem comportamental justamente o cidadão que foi traído por sua esposa.

Ao mesmo tempo, objetifica a mulher como

posse do homem e distorce a percepção sobre alguém que pode ter sido fiel,

mas não recebeu a mesma reciprocidade ou respeito dentro do relacionamento conjugal.

A situação se agrava quando observamos um padrão cultural recorrente no Brasil:

muitas vezes, o homem que trai é visto como garanhão, enquanto a mulher

que trai recebe rótulos pejorativos. Uma visão mais justa e equilibrada

deveria direcionar o julgamento exclusivamente a quem desrespeita

o parceiro ou rompe o compromisso assumido na relação

— independentemente de gênero. Este é o terceiro momento

em que reflito sobre esse tema. Trago aqui, com humildade, minha

visão pessoal e deixo também um convite: que possamos pensar juntos

sobre como a linguagem que usamos não apenas descreve a realidade,

mas ajuda a construí-la. E, claro, fico aberto a ouvir a sua opinião.

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